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OS
CONTOS
Fundação
da Póvoa
Segundo
a tradição oral dos anciãos da nossa aldeia, a Póvoa não terá
nascido no local onde hoje se encontra, mas sim num local denominado
de “Boiça Pereira”, para lá da Portela com o mesmo nome.
Este
legado oral, assegura que aí se terão fixado duas famílias, os
Moleanos e os Toleanos. Os dois homens terão enviuvado e
posteriormente trocado as filhas, para com elas contrair matrimónio.
Por isso, ainda hoje se conta, em locais de convívio, o que as filhas
diziam uma para a outra, ao verem chegar os seus maridos:
- Lá vem
Moleano e Toleano nossos pais
- Nossos
legítimos maridos, pais dos nosso filhos
- E
maridos das nossas mães.
No entanto, como o
local fosse extremamente frio e ventoso, resolveram passar para o
local onde hoje se encontra a Póvoa, mais protegido e calmo. Ainda
agora, os mais idosos recordam o tempo em que, na “Boiça
Pereira”, desbravaram o terreno para fazer as hortas, actualmente
designadas de lameiras, e puseram a nu velhas ruínas do que terão
sido as paredes das casas e, provavelmente, de um forno. Portanto o
que se conta até pode ter algum fundamento de verdadeiro...
Contava-me
a minha avó, que o ouvira ao pai dela – dizia-me o tio António
Ferreiro, simpático velho, dotado ainda de uma memória prodigiosa
– que, em tempos já muito afastados, viveu na Pampilhosa um senhor
muito rico e muito devoto, a cuja generosidade se deve, não só a
fundação da capela da Senhora Santa Eufêmia – e dizendo isto
tirava o chapéu com respeito – mas também a da Igreja velha que se
queimou (1) e quase
todas as capelas destas redondezas.
Esse
senhor chamava-se Afonso Loureiro e antes de enriquecer governava a
vida vendendo sardinha, que “ia buscar lá abaixo com uma cavalanca”.
Ora uma vez, passando
pela Serra com uma carga de sardinhas, notou que os pastores se
divertiam, atirando ao ar umas bolinhas amarelas muito reluzentes.
-
Onde
achastes essas lindas bolas, meus meninos? Quereis-mas trocar por uma
quarteirão de sardinhas? – perguntou-lhes ele.
-
Ó
tiozinho, achámo-las ali em baixo. Há lá tantas! Ora venha ver.
E o bom do homem,
deixando as sardinhas, carregou mas foi o burro com as bolinhas de
ouro. Passando por aqui, antes de chegar à Pampilhosa, edificou esta
capela e só depois é que foi mandar fazer a Igreja..
E ainda não há
muito tempo (é já da lembrança de minha mãe) que o altar era todo
dourado. Mas passaram por aqui uns pintores que iludiram o povo;
roubaram o ouro e pintaram-no como agora está.
A outra” vítima”
das minhas indagações foi a boa da Ti-Clementina que confirmou ipsis
verbis o que acabamos de referir. E mais. A capela da Misericórdia
da vila foi também mandada erigir, e de tal modo isso é certo que
ainda não há muito tempo, na igreja, se rezava todos os domingos um
responso: - “Pela alma de Afonso Loureiro, benfeitor desta
igreja”.
(1)
– O incêndio da Igreja Matriz deu-se aí por alturas de
1907.
Para
dar uma pequena ideia do estado de coisas desse tempo, não resistimos
à tentação de reproduzir as palavras que o padre António,
coadjutor, natural, creio, da Teixeira, costumava dizer e que
amavelmente me reproduziram de memória: - Freguesia da Igreja
Queimada, Santos de cabeça cortada, música roubada, Misericórdia
numas muletas. Não há mal que não lhe aconteça.
Conto
"Os montes da Lua"
- Nas noites de lua
cheia podemos ver com maior nitidez
- o relevo, as
crateras e os montes lunares.
- Ora, os
"antigos" tinham uma explicação lendária para estes
montes:
- Certo Domingo, um
homem resolveu ir roçar umas silvas
- que cresciam numa
sorte de sua propriedade.
- Apesar de tal dia
dever ser consagrado ao Senhor,
- entendeu aquele que
era a altura ideal para o fazer,
- até porque o seu
terreno ficava num barroco, longe dos olhares mais
- reprovadores do
povo. E se assim pensou melhor o fez.
- Enquanto roçava as
malvadas silvas, apareceu-lhe um estranho que lhe perguntou:
- - Que faz aqui ao
Domingo?
- O homem respondeu
que roçava umas silvas e que não havia qualquer
- problema, pois ali
ninguém o via a trabalhar em "dia santo".
- - Pois agora -
respondeu o estranho - vais para um sítio onde todos te vejam!
- Então, como
castigo, o homem foi colocado na Lua onde ainda hoje se dedica a
roçar as silvas, formando aqueles montes que se observam da Terra.
- Aquele
"estranho" era afinal Nosso Senhor que andava pelo mundo.
-
- (Recolhida a Maria
Albertina Barata e Gracinda da Piedade das Neves na Freguesia de
Portela do Fojo)
O
«Samarrica» do Vale Derradeiro
Conta-se
que o primeiro homem que viveu em Vale Derradeiro residia numa casa
humilde. Certo dia deslocou-se a uma feira da região e, abeirando-se de
uma tenda, começou por observar a mercadoria e naturalmente perguntar
preços. O tendeiro, por sua vez, vendo a forma de vestir do nosso
homem, que apenas ostentava uma samarra como objecto de vestuário mais
valioso, pergunta-lhe:
- O que
é que o «samarrica» quer se não tem dinheiro para comprar?!…
Recebeu
o tendeiro como resposta:
-Fique
o senhor sabendo que o «samarrica» é do Vale Derradeiro e se
estivesse na minha terra comprava tenda e tendeiro!
Acontece
que naqueles tempos abundavam os salteadores e para azar do nosso
personagem dois encontravam-se ali a ouvir a conversa e provavelmente
tê-lo-ão seguido até casa. Uma vez lá, sob ameaça à família do «samarrica»,
filhas e mulher, obrigou-o a entregar algumas moedas em ouro que o mesmo
tinha escondidas no «açafate».
Já
tinham os malfeitores saido de casa e o «samarrica», na intenção de
acalmar os seus, diz: - Calma mulher que ainda nos resta o do cepo!
Os
larápios, que haviam desconfiado haver mais ouro naquela casa, ficaram
à escuta junto a uma janela e assim acabaram de "depenar" o
nosso «samarrica».
Honra a
todos os que foram ou tenham de ser «samarricas».
Paulo
Almeida in http://valederradeiro.no.sapo.pt/
CONTOS
DO SOBRAL VALADO
A
CORDA JÁ LÁ A LEVEI SENHOR PRIOR...
Conta-se que certo dia,
estando o padre da Freguesia a celebrar missa em Sobral Valado, na
altura da homília ou sermão, este, entre outras coisas relacionadas
com o culto, terá dito mais ou menos isto:
... acorda pecador !...
Logo se houve da
assistência uma vós que diz: A corda já lá a levei Senhor Prior !...
Tinha havido
recentemente confissões na aldeia. Alguém se terá confessado ao padre
do pecado de ter roubado uma corda ao vizinho, tendo sido aconselhado/a
pelo confessor a devolver o objecto ao seu dono.
Nestas circunstâncias,
ao ouvir aquela frase, pensou estar o padre a dirigir-se directamente a
ele/ª Como já tinha cumprido a penitencia, muito naturalmente,
respondeu-lhe: A corda já lá a levei, senhor Prior !...
Nunca ouvi falar em
nomes destes intervenientes !...
Terá sido passado em
Sobral Valado ?...
A lenda diz que sim
!... Como não trará muitos inconvenientes aos sobralvaladenses,
tomamo-la como certa !...
OS
SOBRALVALADENSES E OS MEDOS
...
( BRUXAS, VELHA DA
CAPUCHA, ALMAS DO OUTRO MUNDO, SUPERSTIÇÕES, ETC. ETC. )
Como em todas as terras
, a nossa aldeia não podia fugir à regra, também tinha as suas lendas
, os seus fantasmas, os seus « medos » como vulgarmente eram chamadas
as imaginações que de geração em geração foram sendo transmitidas
e que todos com maior ou menor respeito ou terror, foram guardando e
transmitindo, conforme o seu jeito de contar. Uns ampliavam e até
tinham jeito para esse facto, outros nem tanto, o que é certo, é que
existiam as seus « medos » e todos ou quase todos lhes guardavam
respeito.
Conta-se que existiam
na aldeia certas mulheres possuidoras de um poder especial para fazer o
mal ao seu semelhante, muitas vezes contra a sua própria vontade, mas o
seu instinto a isso as obrigava. Então, não era raro apontarem-se
certas mulheres de terem esse poder infernal, do demónio. Ainda conheci
algumas dessas mulheres, na minha meninice, a quem eram atribuídas
essas forças sobrenaturais. Não vou divulgar nomes para não ir ferir
ou molestar moralmente, os seus descendentes. Também, para o caso
presente pouco interessa.
Quando se passava por
uma dessas mulheres, a longa distância, já se estava a fazer figas,
com a mão escondida na algibeira, os homens, debaixo do avental, as
mulheres e logo se ficava a pensar .Hoje vai-me acontecer alguma
anormalidade. Se por acaso isso acontecia, muito normal no dia a dia da
vida campestre, eram logo feitos maus pensamentos, encontrei fulana e
foi ela que me deitou o mau olhado...
Havia nessa altura,
(1950/60 ) muitas juntas de bois na aldeia, talvez umas sete ou oito. Os
seus donos, que chamavam «boieiros», trabalhavam muito durante a noite
por causa do calor, das moscas e dos moscardos, que atacavam ao animais.
Então eram esses homens os mais atacados por esses maus olhados e pelos
medos...
Todos sabemos que de
noite, qualquer coisa mete medo !... Bastava um pequeno coelho, uma
raposa, uma ave nocturna, que de repente se levantasse do seu
esconderijo , para assustar os animais ou os donos...Isso acontecia
frequentemente. Logo se começava a deitar maus pensamentos e eram as «
bruxas » que entravam em acção, era fulana ou sicrana que por ali
andava tentando fazer mal... O que é certo, é que quem andava de noite
apanhava grandes sustos ! Fosse o que fosse... Acontecia porém, que
certos homens, que todos julgavam resolutos e sem medo, se recusavam a
ir a certos locais, fora da povoação, durante a noite. Diziam eles «
a noite Deus a temeu !...»
Alguns dos boieiros ,
segundo constava, chegavam mesmo a enfrentar essas mulheres, durante o
dia, ameaçando-as para que não lhe voltassem a repetir a cena da noite
ou noites anteriores.
Havia certos locais que
eram mais propícios a esses acontecimentos de bruxarias. Eram os
moinhos, à beira da Ribeira, onde moíam o milho e o trigo e
transformavam em farinha para a broa ou o pão. Como trabalhavam de dia
e de noite eram frequentados por toda a gente e variadas vezes. Era
muito frequente as pessoas dormirem dentro dos moinhos, para lhes dar
assistência , fazerem a farinha mais fina ou mais grossa, reparar
alguma avaria que surgisse, falta de água por qualquer rotura ou até
para poupar energias de andar o caminho duas vezes.
Faziam uma valente
fogueira e iam dormir. Se não ocorria qualquer anormalidade, tudo bem !
Se faltava a água ou outra avaria, era o terror ! São as bruxas que
aí andam. Se havia algum homem mais resoluto, lá iam ver o que se
passava. Se estavam pessoas medrosas, atrancavam as portas e só saíam
do moinho em pleno dia ou quando alguém aparecia para se utilizar do
moinho nesse dia.
Um dos moinhos que mais
era «atacado» pelas bruxas era o das Brasinas . Havia certos homens e
mulheres que sabiam dizer « as treze palavras ditas e retornadas», que
faziam aparecer e prender as bruxas ou bruxa, dentro do moinho ou noutro
local. Para isso não se podiam enganar ao dize-las...
Conta-se que certos
homens, e ainda ouvi contar a um homem muito corajoso e resoluto, sem
medos, que estando no referido moinho, acontecendo-lhe uma avaria, disse
as mágicas palavras e viu entrar pela porta dentro, sem a abrir, uma
mulher de Sobral Valado.
Esta pedia-lhe
que a deixasse ir embora , ao que ele lhe respondia:
Vai com
Deus.
- Não,
com esse não posso e não quero...
Com outro
não te quero eu mandar...
Voltava a
repetir-se a cena.
Deixa-me ir
embora.
Vai-te
embora com Deus
Já te
disse; com esse não posso e não quero
Até que o
homem cansado e farto da a ouvir com as mesmas lamúrias lhe
diz:
Vai-te
embora com todos os diabos !...
Ela
desapareceu envolta numa grande bola de fogo !...
Recordo-me que este
Homem, quando havia alguma trovoada e fazia relâmpagos, dizia: Hoje há
grande jantarada lá em cima, já andam a acender os candeeiros ! Quando
se sucediam os trovões, ele continuava: Olhem, andam a arrumar as mesas
e as cadeiras!...Todos nós tinhamos receio de o ouvir falar assim!...Era
um homem muito forte, transportava carregos de lenha e outros dos
Cerejeiros para cima, que era de arrepiar...
Voltando ao assunto das
bruxas, era frequente ver-se de noite, nos montes fronteiriços à nossa
aldeia, várias luzes a mexerem-se e a dar a impressão que saltitavam.
Acontecia na Portela, na Sanchamoura, no cabeço do Signo Samo etc.
Diziam que eram as
bruxas que ali andavam a dançar mais os diabos. O que é certo, é que
se via esse movimento. Eu por diversas vezes o vi. O que era, nunca
soube ao certo, mas via-se mexer. Electricidade não havia, carros
também não, só de bois, e estes não tinham luzes, estradas naqueles
locais eram más, simples carreiros de cabras!... A voz corrente, era
que eram as bruxas nos seus bailaricos... Estes espectáculos só eram
visíveis entre a meia noite e a uma e meia da manhã, diziam que se
efectuavam nas meias horas...
Contavam os rapazes da
geração anterior à minha, que tocavam muito bem guitarra e faziam
grandes serenatas que se prolongavam pela noite fora, que ao regressarem
ao Santo, passavam pela Barreira e quase sempre se cruzavam com uma
misteriosa figura da mulher, magra, alta, embrulhada num manto preto,
com uma capucha na cabeça, que passava por eles a correr e desaparecia
para as bandas da Pontina. Como não havia luz eléctrica, nunca a
conseguiram identificar. Também nunca lhes fez mal. Escusado será
dizer que a ronda ou serenata acabava, logo cada qual regressava a sua
casa.
Os boieiros, também
diziam que viam a velha da capucha a deslocar-se para a Pontina, quando
de noite iam levar os bois a beber água e se cruzavam com ela.
Havia outros tipos de
«medos», que eram «as almas do outro mundo». Segundo contavam,
assombravam as casas e as pessoas. Apareciam a falar dentro de outras
pessoas, que se transfiguravam e entravam em transe e no final não se
recordavam de nada passado, com vozes diferentes, que as pessoas
identificavam como sendo de pessoas já falecidas. Então, em
conversação com as pessoas mais resolutas, ou que esses espíritos
reclamavam para falar, faziam pedidos: Que pediam desculpa a fulano ou
sicrano , por isto ou aquilo que em vida lhe tinham feito. Que
devolvessem a este ou aquele , a coisa que indicavam. Que mandassem
celebrar tantas missas por alma de fulano, afim de poder entrar no Céu
!... Etc.etc.
Estes acontecimentos
deixavam as pessoas da aldeia aterrorizadas e os pedidos eram pronta e
escrupulosamente atendidos pelos seus familiares ou pelas pessoas a quem
eram dirigidos .
Havia outro tipo de
«medos», eram os «lobisomens», que se transformavam em animais e
passavam a noite a vaguear pelos montes e caminhos, especialmente nos
cruzamentos mais frequentados. Destes «medos», não havia conhecimento
ou suspeição que existisse algum em Sobral Valado, vinham das outras
aldeias vizinhas...
Os lugares mais
preferidos para os medos, eram os cruzamentos onde se entroncassem
quatro caminhos. A população ao passar nesses sítios, até mesmo de
dia , guardava um pouco de respeito e receio, chegando mesmo pessoas a
afirmar que ao passarem nesses sítios se arrepiavam e apressavam o
passo de andamento. Com frequência se via, nesses cruzamentos colocadas
cruzes de madeira . Nunca soube a que título tinham sido colocadas.
Em alguns cruzamentos,
antigamente, eram erguidos pequenos monumentos, em pedra e barro, com
cerca de um metro e meio de altura, onde era feito um nicho e colocado
dentro uma estampa, normalmente feita em madeira, pintada com figuras
alusivas às almas do Purgatório ou outras. Tinham um pequeno orifício
para introduzir qualquer esmola em dinheiro e uma grade em ferro para as
proteger de possíveis malfeitores , afim de não as danificarem.
Algumas tinham certas
inscrições , das quais me recordo da seguinte: « Ó VÓS QUE IDES
PASSANDO, LEMBRAI-VOS DE NÓS QUE ESTAMOS PENANDO »
Diziam que esta legenda
se referia a almas que estavam no Purgatório.
Não posso garantir que
estas construções estivessem relacionadas ou ligadas, com os medos,
mas o certo é que estavam construídas nos cruzamentos ou em locais de
muita passagem. Na altura, todos os viandantes que se cruzavam com estas
«alminhas», como eram conhecidas, rezavam às almas do Purgatório.
Também , outro dos
receios , e porque não dizer medos, era, e ainda é, a "sobrevoação"
da povoação por grupos de corvos , que normalmente lançavam, e ainda
lançam, pois ainda a sobrevoam, com o seu gemido de. Quá ! Quá! Quá!
... Era mau agoiro ! Alguém da aldeia ia ou estava a morrer!... Se
alguém estava doente, era para aí que se desviavam as atenções ,
fulano ou sicrano, vai morrer, os corvos fartaram-se de sobrevoar a
povoação e não se calaram...Se alguém estava muito doente e acabava
por falecer, lá se reforçava o agoiro, era ou é certo o sinal que os
corvos dão!...
Existe ao cimo da
povoação um cabeço que por acaso, ou não, os antigos denominaram de
cabeço dos Corvos, e ainda hoje se mantém essa denominação. É
claro, como o cabeço fica mesmo ao cimo da povoação , é normal que
os corvos, na sua altitude e no redemoinho que efectuam , sobrevoem a
povoação e tudo em redor.
Esta superstição
ainda hoje se mantém na nossa aldeia...
Outra das
superstições que existiam e ainda continuam, pelo menos nas mentes das
pessoas mais idosas , é o facto de ao assistir à missa, entre a
elevação do cálice e da hóstia, alguém der um espirro. Isso é
morte certa de algum familiar dessa pessoa. Há saída da missa é logo
comentado: « Santa Mãe de Deus », vai morrer brevemente alguém !
Fulano ou fulana espirrou entre o Cálice e a Hóstia !...
Era muito frequente
ver-se, por detrás das portas de habitação, mas com mais frequência
nas portas dos currais dos animais , muitas vezes na frente, pregarem
ferraduras de animais, bois, burros etc. Geralmente eram acompanhadas
por um signo-saimão, feito em madeira ou pintado. Tirava o mau olhado
para os animais e dava sorte aos mesmos.
Quando alguém se
deslocava a casa de outro ou a qualquer lado tratar de assunto
importante, ou onde fosse preciso tomar decisões , logo lhe diziam !
Vê lá se entras com o pé direito !...Dá sorte !...
Também, se alguém se
enganava a vestir qualquer peça de vestuário, pelo lado avesso, logo
regozijava, vou receber brevemente uma prenda!...
Havia na aldeia,
mulheres, já velhinhas, que lhe atribuíam uma certa força ou virtude,
tiravam o «Quebranto». Faziam rezas, queimavam determinados paus e
ervas em azeite e «curavam» as pessoas do mau olhado, de inveja, de
certas doenças, etc. etc. Normalmente, os, ou as, doentes não pagavam
qualquer importância pelo trabalho efectuado, mas ficavam agradecidas e
na obrigação moral de as recompensar do seu trabalho. Estas mulheres,
também eram procuradas , quando adoeciam alguns animais , nomeadamente
os porcos ou suínos, que morriam muito. Não eram vacinados como hoje e
a higiene nos seus currais por vezes também era pouca.!...
A
LENDA DE UNHAIS-O-VELHO
Em tempos que já lá
vão há muito, havia na aldeia um homem já idoso e temente a Deus que,
para cumprir os seus deveres de cristão, se via obrigado a percorrer
todos os domingos longas distâncias até chegar a uma igreja onde
pudesse ouvir missa. Era uma figura austera, conhecida em toda a
região, que dava mostras duma fé profunda mas ao mesmo tempo eivada de
tristeza por não lhe ser possível cumprir os preceitos religiosos na
sua terra por nela não existir qualquer igreja ou capela onde pudessem
ser celebrados.
Nas suas andanças pela
Serra, calhou num domingo assistir à missa na igreja de Santa Maria
Maior da cidade da Covilhã, distante da sua aldeia, por caminhos e
atalhos, algumas dezenas de quilómetros. Cumprido o preceito dominical,
encheu-se de coragem e dirigiu-se à sacristia para falar com o
celebrante, a quem se lamentou do esforço e do sacrifício que fazia
todos os domingos para cumprir as suas obrigações de fervoroso
católico.
Comovido com tanta fé,
mas não avaliando porventura, em toda a sua dimensão, a tenacidade do
velho unhaisense, o prior de Santa Maria prometeu-lhe a construção
duma igreja na sua aldeia, na condição de durante um ano inteiro não
faltar ali, na Covilhã, um só domingo para assistir à missa. O velho
ainda hesitou em aceitar o repto, pensando na distância que teria de
calcorrear todos os domingos do ano, mas confiante na força da sua fé
acabou por aceitar o desafio.
E passou a ser uma
presença domingueira naquela igreja, constituindo um exemplo de fé e
de perseverança a suscitar admiração generalizada, até que, no
derradeiro domingo do ano, um dia particularmente agreste e marcado por
grande nevada, o prior, ao notar a ausência do unhaisense, esfregava as
mãos de contente, pensando que se libertaria do compromisso assumido e
dizendo para os paroquianos que "é hoje que o velho de Unhais
falta à missa e assim não vai ganhar a igreja". Mas não
contava com a tenacidade do velho. Com o povo já cansado de esperar
pelo início da cerimónia e quando o sacerdote, já paramentado, se
aprestava para subir ao altar, eis que entra na igreja o "velho
de Unhais", encharcado até aos ossos e cansado da longa e
fatigante viagem em condições climatéricas tão adversas.
Sacudindo com gestos
largos o albornoz que o defendera da neve e do frio e acomodado a um
canto, ao fundo da igreja, como era seu hábito, o velho unhaisense, com
voz rouca e cansada de serrano calejado na dureza da sua faina
quotidiana, ainda teve forças para gritar bem alto "cá está
ele, o velho de Unhais, ganhei a igreja para a minha terra".
Aníbal
Pacheco in http://unhaisovelho.no.sapo.pt
-
Os
Mouros da Pampilhosa da Serra
Conta-se
que antigamente, na Pampilhosa da Serra, existiam mouros. Essa
comunidade de mouros morava numa gruta num sítio chamado "Ponte
da Covilhã".
Certo
dia, uma mulher moura que estava para ter bebé encontrou-se em
grandes dificuldades no trabalho de parto.
O
marido muito aflito foi procurar auxílio à povoação. Soube então
de uma senhora que fazia partos e foi lhe pedir ajuda.
Algumas
pessoas não confiavam nos mouros e aconselharam-na a não ir porque
eles podiam matá-la.
A
senhora encheu-se de coragem e foi fazer o parto que por sinal correu
muito mal. Em troca da sua bondade o mouro deu-lhe pedras de carvão.
A senhora pelo caminho olhou fixamente para as pedras e disse:
-
Para que quero isto? – E atirou-as de seguida para o chão.
Pensou
melhor e levou duas para casa. Quando chegou a casa, tirou as pedras
de carvão para trás da lareira. De manhã quando olhou para a
lareira e viu duas pedras de oiro. Vestiu-se rapidamente e foi a
correr ao local onde tinha deixado as outras duas, mas estas tinham
desaparecido.
Não
acreditam? Ainda existe essa gruta na Pampilhosa da Serra.
Alunos do 1º ciclo da EBI Pampilhosa da Serra
A
Ponte da Covilhã
A lenda conta-nos que
homens do concelho da Covilhã quiseram reclamar a Pampilhosa pela lei da
força, para tal foi necessário tentar apanhar a população
desprevenida, não podiam portanto alcançar os Paços do Concelho
pela ponte no centro da vila, porque seriam vistos. decidiram
durante a noite construir uma ponte, e foi o que fizeram. No entanto
existem dois finais felizes para a população da Pampilhosa: Após
atravessarem a ponte e no caminho para a vila tiveram que passar
pelo cemitério e foram detidos pela intervenção divina de S.
Sebastião, no local onde foi construída uma capela como forma de
agradecimento.
A outra (e tendo em
conta a mentalidade actual) diz que houve um habitante que ao voltar da
horta avistou as movimentações e, como acontece ainda nos nossos dias,
contou a toda a gente da vila e todos se puseram em guarda á espera do
invasores, que foram corridos...
Ficção ou realidade a ponte está lá dissimulada o meio da
vegetação, ligando duas margens do rio num local aparentemente
desnecessário, guardando consigo o mistério da sua construção e
puxando pela imaginação dos que ouvem a sua lenda.
Nota: A história com o final por intervenção divina foi-me contado
pela minha tia avó Maria José da Eira já falecida, a história com o
final épico foi-me contada pelos meus pais.
Emília Olivença
Simões
A
batalha dos Padrões
O
lendário episódio que se segue remonta ao tempo em que os Mouros ainda
povoavam meio Portugal.
Há
muitos, muitos anos, os Portugueses e os Mouros defrontaram-se numa
batalha não muito longe da aldeia de Padrões (Freguesia de Portela do
Fojo). Foi uma batalha tão dura e renhida que, a dado momento, só
restava um punhado de Portugueses pelo que estes tiveram de se retirar,
pois estavam na eminência de perder o confronto. Assim, montaram nos
seus cavalos e começaram a fugir em debandada pelos montes, serra
acima, em busca de um refúgio para não serem chacinados.
Mas os
Mouros não se contentavam com o simples abandono do campo de batalha
pelos Portugueses, tinham de se apoderar da bandeira de Portugal. É que
naquele tempo a honra era muito importante e uma batalha só estava
ganha quando o exército vencedor caçava a bandeira dos vencidos.
Assim, partiram rapidamente no encalço dos Portugueses.
Estes
logo se aperceberam das suas intenções, mas sabendo que ali perto
estava implantada a Quinta de Padrões – qual castelo fortificado –
que pertencia a nobres portugueses rumaram em sua direcção. É que
para dentro dela só entrava quem os fidalgos deixassem. Confiantes de
que no seu interior encontrariam a protecção de que necessitavam para
conservar as suas vidas e a honra de Portugal continuaram a galope,
sempre com a bandeira nacional em punho, com os terríveis Mouros na sua
peugada.
Só que
quando chegaram à dita Quinta deram com os seus portões fechados.
Apesar dos seus alertas, ninguém abria os portões àqueles bravos
cavaleiros. E os Mouros cada vez mais perto.
Então,
para evitar a derrota portuguesa, atiraram com a bandeira para o
interior da Quinta e partiram novamente serra acima para salvar as suas
vidas.
Os
Mouros, esses, não conseguiram capturar a ambicionada bandeira. A honra
de Portugal estava salva no interior das "armas reais".
Recolhida
por António Amaro Rosa a D. Gracinda Piedade das Neves, no Lugar de
Selada (aldeia de Amoreira - Freguesia de Portela do Fojo).
As
Bruxas das Fontes
Conta-se
que para os lados do Lugar das Fontes (Aldeia do Trinhão – Freguesia
de Portela do Fojo) existiam algumas bruxas.
As
bruxas eram mulheres comuns, simplesmente tinham um condão: em certas
noites juntavam-se nos terreiros ou barrocas das Fontes ou até no
Cabeço Murado, sobranceiro ao Trinhão, e bailavam toda a noite. Tinham
ainda uma característica muito especial que era o facto de terem uma
luz no rabo.
Para que elas pudessem
abandonar o lar nessas ocasiões sem serem descobertas tinham de
enfeitiçar os seus maridos. Para tanto, passavam com as luzes dos seus
rabos por cima da cara dos esposos, benzendo-os e dizendo a seguinte
reza:
- Eu te benzo
benzaú
- Com as barbas do
meu cu,
- Tu durmas e
acordes
- E não tenhas mal
nenhum!
- Ou então:
- Eu te benzo belaú
- Com as barbas do
meu cu,
- Que eu vá e volte
- E não tenha mal
nenhum!
Posto
isto, podiam entrar e sair pelas fechaduras de suas casas sem que
acordassem os seus maridos.
E
conta-se também que numa dessas noites, quando uma bruxa se preparava
para enfeitiçar o seu marido, este ter-se-á apercebido das intenções
da esposa, tendo prontamente respondido:
- Eu te benzo minha
porca
- Com a tranca da
porta!
E deu-lhe uma valente
mocada.
Recolhida
por António Amaro Rosa a D. Maria de la Salette, no Lugar de Felgueiras
(Aldeia de Ribeiro do Soutelinho – Freguesia de Portela do Fojo).
O
Velho das Fontes e as Bruxas
Já por
estas páginas vimos que antigamente, lá para os lados do Lugar das
Fontes, junto da aldeia do Trinhão, existiam algumas bruxas e que em
certas noites se juntavam todas no Cabeço Murado ou nas barrocas das
Fontes, onde cantavam e bailavam a noite toda.
Durante
o dia eram mulheres normais, mas ao cair da noite passavam com as luzes
dos seus rabos pelas caras dos maridos, enquanto estes dormiam, dizendo
as palavras mágicas:
- Eu te benzo
benzaú
- Com as barbas do
meu cu,
- Tu durmas e
acordes
- E não tenhas mal
nenhum!
Ditas
estas palavras, saíam pelas fechaduras de suas casas sem que os
respectivos maridos dessem por sua falta.
Em
tempos já idos, viveu nas Fontes um velhote que já estava acostumado
àquela "vizinhança" e de tal modo até que, com o passar do
tempo, aprendeu como encantá-las.
Certa
noite, ao vê-las a dançar ali perto de um terreiro resolveu ir ao seu
encontro e antes que elas pudessem fugir começou a contar-lhes um
conto. As bruxas ficaram logo rendidas e ele, aproveitando-se da
situação, pô-las a trabalhar para si toda a noite, pois faltavam-lhe
mãos para o trabalho e a idade já lhe pesava.
Elas
bem queriam libertar-se e gritavam-lhe "desprenda-nos,
desprenda-nos", mas não conseguiam, pois estavam enfeitiçadas
pelo tal conto. Assim, passaram a noite toda a trabalhar para o velho,
acartando o esterco para a sua horta e só quando terminaram aquele
trabalho é que finalmente o ancião as libertou e se foi deitar.
Porém,
quando acordou horas depois e se dirigiu à rua nem queria acreditava no
que via, pois as bruxas, pouco antes do sol nascer, haviam ali
regressado e espalhado todo o esterco que acartaram durante a noite à
frente de sua casa, como vingança pela afronta que lhes fez.
Recolhida
por António Amaro Rosa a D. Maria de la Salette (Aldeia de Ribeiro do
Soutelinho – Freguesia de Portela do Fojo) .
A
lenda do Lagrisomem
A lenda
do lagrisomem é, porventura, a mais conhecida de entre as lendas
Portelenses.
Nos
tempos antigos eram usuais as famílias numerosas, uma vez que a
mortalidade era elevada e todos os braços eram poucos para o amanho da
terra.
Todavia,
acreditava-se que se um casal que tivesse uma irmandade de sete rapazes,
um deles seria lagrisomem. Ao invés, se um casal tivesse uma irmandade
de sete raparigas, uma delas seria bruxa.
O
lagrisomem é um homem que, durante o dia, é uma pessoa normal, mas tem
um fadário: todas noites de Sexta-feira tem de correr os sete lugares
da freguesia (Amoreira Fundeira, Amoreira Cimeira, Ribeiro, Folgares,
Padrões, Trinhão e Indioso), com os chocalhos de todos os animais das
aldeias a fazer barulho. No dia seguinte, acorda todo "moído"
sem se lembrar de nada e se não houver ninguém que lhe tire aquele
condão, anda toda a vida a percorrer os ditos sete lugares.
Contavam
os nossos trisavós que houve em tempos na Amoreira uma irmandade de
sete rapazes e que um deles era um lagrisomem. Todas as sextas-feiras o
som do chocalhar cortava o sossego da noite, rompendo pelas quelhas e
caminhos. Os cães ladravam ruidosamente aquando da sua passagem e
ninguém tinha a coragem de sair à rua durante essas noites, pois
constava que a criatura batia ferozmente àqueles que se atravessassem
no seu caminho.
Uma
dessas noites, alguém mais corajoso resolveu pôr fim àquele fadário.
Como sabia que o lagrisomem passava sempre sob o Passadiço – perto de
onde hoje é o Largo da Rua - todas as sextas-feiras, resolveu esperar
ali por ele, na escuridão, munido com uma aguilhada dos bois porque,
segundo constava, era a única forma de acabar com o feitiço.
Eram
já altas horas da noite quando, a certa altura, ouviu o barulho
infernal dos chocalhos, acompanhado pelo ladrar furioso dos cães. Daí
a pouco tempo, o homem viu o vulto do lagrisomem. Quando este se
preparava para passar sob o passadiço o homem repentinamente
espetou-lhe a aguilhada.
A
partir desse feito, o fadado viveu todas as noites de Sexta-feira feira
como uma pessoa normal e sempre muito reconhecido ao corajoso homem que
pôs termo àquele seu fado.
Recolhida
por António Amaro Rosa na freguesia de Portela do Fojo.
A
lenda da Senhora da Capela
Em
tempos já idos, constava que junto a um dos postigos da velhinha Capela
de Santa Bárbara (antiga capela de Nossa Senhora da Guadalupe), erguida
na Amoreira Fundeira (Freguesia de Portela do Fojo), aparecia em certas
noites o vulto de uma mulher, com um véu, orando de joelhos.
Pensavam
os nossos avós que era, certamente, uma mulher com algum degredo ou
fadário. O "fadário" verificava-se após a morte de uma
pessoa e sucedia àqueles que, durante as suas vidas, fizeram alguma
promessa a alguém (normalmente a um Santo ou uma Santa de sua
devoção), foram atendidos nas suas preces mas esqueceram-se, mais
tarde, de cumpri-la. Assim, após o seu falecimento e antes de irem para
o Purgatório, deambulam pela Terra penando por não terem cumprido o
voto prometido, em contrapartida à graça com que foram atendidos.
Certo,
certo é que o vulto da mulher junto da capela de Santa Bárbara era
frequente, mas ninguém tinha coragem de chegar junto dela, pois
pensavam que ela lhes poderia fazer mal ou que lhes levaria as suas
almas. Por isso, sempre que na noite em causa se suspeitasse que a
Senhora da Capela estaria junto de um dos postigos nenhum Amoreirense
sairia à rua, tal era o terror.
Numa
dessas noites, um homem mais corajoso do que os demais da aldeia avistou
o vulto da Senhora da Capela, como era hábito junto de um dos postigos,
e pôs-se a caminho ao encontro da mesma. Uma vez ali chegado, observou
a dita Senhora prostrada, com um véu, junto de um postigo a orar, sem
que ela – aparentemente – se tivesse apercebido da sua chegada.
Então,
o homem encheu o peito de coragem e dirigiu-se à Senhora da Capela
perguntando-lhe:
- O que
está aqui a fazer Senhora?
Nisto,
a Senhora ergue-se e dá duas valentes bofetadas na face do homem,
respondendo-lhe com esta misteriosa afirmação:
- Quem
está, está... quem vai, vai!
E o
homem fugiu apavorado para sua casa, não tendo mais vez alguma repetido
tal façanha.
Consta que, algum tempo
depois, a Senhora da Capela deixou de aparecer. Cumpriu, por certo, o
seu fadário e pôde, finalmente, descansar a sua alma em paz.
Recolhida por António
Amaro Rosa a D. Maria de La Salette (aldeia de Ribeiro do Soutelinho -
Freguesia de Portela do Fojo)
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