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Maria Gomes as primeiras Letras
 

 

MARIA GOMES - As primeiras letras

As minhas primeiras lembranças reportam-se à casa da minha avó materna. À entrada havia um corredor comprido que conduzia ao sobrado, amplo e luminoso, onde existia uma mesa rectangular, emoldurada pelas cadeiras arrumadas em seu redor, e uma enorme arca de madeira que guardava a roupa e também aquelas coisas delicadas que a minha avó gostava de preservar fora do alcance de outras pessoas. Guardo o sabor das amêndoas que ela escondia na pesada arca e me oferecia de tempos a tempos, porque havia que poupar, e quantas vezes já com sabor adulterado pelo tempo, mas mesmo assim ainda as sinto roçar-me a língua e o palato, ainda hoje, a fazer-me crescer água na boca.

Ao longo do corredor e após cada lavagem do chão, a minha avó Carolina disponha, em forma de passadeira, algumas páginas do jornal que o meu avô lia amiúde.

Sempre achei que o meu avô António era uma das pessoas mais esclarecidas da terra. Apesar da surdez que cedo o atacou, falava em tom baixo e cordial, com a sabedoria dos que estão atentos ao mundo que os rodeia e sobre ele têm ideias próprias. E quando as suas cartas chegavam a casa dos meus pais, reparava no estilo da letra, de contornos perfeitos, bem desenhada e quase sem erros.

Aprendi a sentir orgulho pelo meu avô. Poucas pessoas na aldeia sabiam ler e escrever como ele e também poucos sabiam falar das coisas que ele falava. Contou-me que no tempo em que fora criança não havia escola. Valeu-lhe o ti Antoninho, que lhe transmitiu alguns conhecimentos dos poucos que aprendera quando apascentava as ovelhas.

O ti Antoninho era tratado assim, no diminutivo, com o carinho dos que nasceram sãos e cheios de força para trabalhar, porque a vida não lhe permitiu tal sorte e o contemplou com uma deficiência física para toda a sua vida.

Felizmente tal condicionante não lhe roubou a inteligência e, como não podia acompanhar os outros nos trabalhos pesados dos campos, sobrava-lhe a condição de, em cada dia, subir à serra com as ovelhas, onde os matos eram mais macios e verdejantes. O acesso era facilitado por se encontrar perto da aldeia e era na serra que passava a principal via de comunicação que ligava as aldeias do baixo concelho à vila de Pampilhosa da Serra. Por lá circulavam comerciantes, médicos, padres, etc. Uns seguiam a pé, outros montados em burros e poucos em cavalos. E, assim, a serra servia de ponto de encontro a pessoas de todas as condições, num ambiente magnífico que constituía um miradouro privilegiado sobre as serras do Açor e de Alvéolos

Os caminhos eram longos, dava jeito fazer uma pausa para descansar e o ti Antoninho encetava conversa com essas pessoas. Arguto e perspicaz, perguntava-lhes se sabiam ler e escrever e, se fosse esse o caso, pedia que o ensinassem. O aspecto aleijado aliado a uma enorme vontade de saber foram conquistando a atenção e a amizade dos que passavam com mais regularidade. Como ninguém, o ti Antoninho soube tirar aproveitamento do que foi ouvindo, assimilando as letras e os números a pouco e pouco.

Enquanto as ovelhas vagueavam pelos montes, qualquer rocha mais lisinha servia de quadro onde repetidamente desenhava o alfabeto e aperfeiçoava os números. Logo começou a soletrar e a fazer contas, tal como qualquer aluno aplicado que depressa assimila os conhecimentos a que tem acesso. Tornou-se muito popular junto dos seus conterrâneos, ganhou fama e alunos também, porque os rapazes da terra não o deixaram enquanto não o convenceram a ensinar-lhes o que sabia.

O avô António foi um deles e, assim que se apanhou a ler, tornou-se assinante dos jornais que naquela época eram distribuídos na zona. Lia assiduamente e com isso aprendia muito da vida do seu tempo, principalmente daquela que lhe passava ao longe e a que só pela via dos jornais podia ter acesso. À noite, enquanto a minha avó procedia às tarefas da cozinha, numa azáfama sem fim, pois além dos cuidados com a família ainda tinha a enorme caldeira de cobre, pendurada sobre a lareira, para onde cortava os diversos legumes que, depois de cozinhados, punha na ferrada e levava ao porco que engordava no curral por baixo da casa.

Estou ainda a ver o meu avô sentado no banco de madeira, fixado a todo o comprimento de uma das paredes da cozinha, de óculos postos, mãos firmes a segurar o jornal na frente dos olhos atentos. Sobre a mesa o candeeiro a petróleo enchia a cozinha de uma luz amarelada que projectava sombras dançantes. E aquele cheiro … ainda o sinto na memória. Era uma mistura de lenha a arder, de fumo húmido que se libertava dos alimentos a cozinhar e do fumeiro que secava junto aos troncos de madeira preta e luzidia que forrava o tecto da lareira.

Ouve lá, ò "Carlina", dizia o meu avô, olha o que o Amigo do Povo diz aqui … e na Comarca dizem … Às vezes a minha avó punha um ar grave, de preocupação, que me deixava triste. Eles eram a minha fortaleza e, se evidenciavam preocupação, mesmo por algo que me era desconhecido, isso tinha efeito sobre mim e preocupava-me também, embora ainda não os entendesse.

Esses conhecimentos a que o meu avô e os homens do seu tempo tiveram acesso abriram-lhes novos horizontes, mostraram-lhes outros caminhos que os levaram da aldeia em busca de trabalho remunerado. No regresso, com as economias amealhadas, contribuíram para melhorar as condições de vida na aldeia. E da vontade desse povo nasceu a primeira escola em Maria Gomes.

Março 2002

Fernanda Gaspar

 

 

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