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A cerejeira e o tesouro 
Um dia de Natal bem quentinho
A febre do Ti António
 

A cerejeira e o tesouro

O Ti Joaquim Maria das Seladinhas tinha uma bela cerejeira ali para o lado das hortas.

Por debaixo da dita, junto à linha de água todos os anos crescia um enorme silvado. Por um lado as silvas até davam jeito, pois assim a miudagem tinha alguma dificuldade em surripiar as cerejas quando elas começavam a pintar.

O Ti Joaquim fazia parte daquelas pessoas, que na nossa zona tiveram um papel de grande sagacidade, que lhe permitia ultrapassar todas as pequenas e grandes dificuldades.

Um dia ao passar pela sua cerejeira, deu com belas cerejas bem vermelhinhas, mas também com uma grande silveira que dificultava em absoluto a apanha das cerejas.

Foi até à Póvoa e logo o seu pensamento maquiavélico o levou a engendrar uma forma de resolver a dificuldade. À sua chegada estava um grupo de rapaziada nova, de entre eles o Floriano e o Zé Francisco.

"Oiçam lá rapaziada, vocês sabem lá o que hoje me aconteceu?...Venho chateado à brava!...Fui às hortas para apanhar uma cerejas e, de repente debrucei-me sobre o silvado, não é que me caíram todos os trocos que trazia no bolso da camisa !..."

O Floriano e o Zé Francisco esperaram algum tempo, até que o Ti Joaquim Maria se fosse embora e logo pensaram como arranjarem uns tostões...

Muniram-se de podões e roçadouras e aí vão eles a caminho das hortas. Mãos à obra e lá roçaram as ditas silvas na procura dos trocos do Ti Joaquim Maria.

Claro que, não havia lá nem um tostão!... Encontraram isso sim alguns calhaus rolados mas aproveitaram, do mal o menos, apanharam todas as cerejas, que estavam em condições de se comerem.

O Ti Joaquim Maria quando ali voltou, deve ter ficado feliz e contente, com o caminho livre para apanhar o resto das suas cerejas e deve ter pensado:

" afinal o mundo é dos espertos".

Há poucos dias fui à Póvoa e, de entre outras pequenas estórias lá me contaram esta, que verdade seja dita eu não conhecia, mas certamente merece ficar na galeria de "as nossas histórias"

Armindo Martins Antunes (Póvoa da Raposeira)

 

A febre do Ti António

 

O Ti Braz de Dornelas foi durante muitos anos o ai Jesus das gentes do alto Concelho da Pampilhosa, onde raras vezes o Dr. Barateiro conseguia chegar.

Ele foi médico, ele foi enfermeiro e também um bom amigo das gentes serranas daqueles tempos.

Quantas vidas terá ele salvo?!...

Logo que alguém se sentia mal ou ficava com febre logo se mandava um familiar chama-lo. Lá vinha ele qual João Semana montado no seu cavalo, acorrendo às chamdas das aldeias mais remotas.

Era Dezembro, mês de gripes e malinas. O Ti António de Almeida andava bastante adoentado e lá mandou um familiar chamar o Ti Braz, que naquele dia já não conseguiu ir ver o doente.

Ao outro dia o Ti António que até já se sentia melhor, lá foi deitar as cabritas para o Tapado.

Já as cabras estavam mais ou menos alimentadas e resolveu levá-las de regresso para o curral.

De repente O Ti António olha ao longe e vê o Ti Braz aparecer no seu cavalo. Vai enxotando as suas cabras, que mal lhe obedeciam dado estarem de barriga cheia. Mesmo assim consegui chegar primeiro.

Corre para casa e grita – "Telvina, Telvina vem depressa que está a chegar o Senhor Braz".

A Ti Telvina vem a correr e o Ti António diz-lhe – "abre aí a cama antes que ele chegue".

No momento certo meteu-se debaixo das mantas vestido e calçado.

Entretanto o Ti Bráz bate à porta, vai entrando e dizendo- "Então Senhor António como é que vai cá o nosso doentinho"

Ti António - "Ai Senhor Bráz eu estou mesmo muito mal, carregado de febre que nem consigo sair da cama"

Ti Braz -"ora muito bem, primeiro vamos lá a ver essa febre e vamos começar pelos pés que devem estar em braza".

Acto contínuo puxa as mantas e ali estava o Ti António deitado, vestido e calçado. Finge-se admirado e vai dizendo:

"Diga-me cá Senhor António, então você ficou tão doente que nem teve tempo de tirar as botas, ou será que veio por aí a fugir de alguém"?...

Nota: Esta história tem uma dupla função:

"Mais depressa se apanha um mentiroso do que um cocho".

Dar a à estampa uma figura tão conhecida da população do alto concelho, que, se estivesse vivo teria muitas histórias para nos contar. Quem sabe, se não irão por aqui aparecer outras pequenas histórias da vida real de outros tempos, tão características afinal das nossas gentes.

Armindo Martins Antunes (Póvoa da Raposeira)

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Um dia de Natal bem quentinho

A noite de Natal é noite de consoada e manda a tradição nas aldeias do nosso concelho, que no largo maior da povoação se faça uma fogueira, que dure toda a noite e se prolongue pelo dia adiante.

Depois da couvada com bacalhau bem regada com o azeite novo, na casa de cada um, vão todos para junto da fogueira, assam-se algumas castanhas, espetam-se uns pedaços de carne e o bom fumeiro, vai-se até às adegas petiscar o bom presunto e prova-se o vinho.

A rapaziada mais jovem aproveita para saltar a fogueira, algumas vezes com incidentes pelo meio.

Já alta noite puxam-se das guitarras e violas e mostra-se quem tem a garganta afinada.

Já lá vão umas dezenas de anos!... Naquele Natal tudo foi ainda melhor. Já de madrugada fizemos uma ruada, e, malvadez nossa acordamos toda a povoação.

Vêm mais uns petiscos que fomos grelhando na fogueira, a qual se ia entretanto apagando!...

Existia um castanheiro ao Chão do Cordeiro, certamente mais velho que a fundação da nossa Terra.

Aquele castanheiro tal como todos os seres vivos tinha morrido, mas lá se mantinha de pé em equilíbrio estável.

Se ele pudesse falar quantas histórias teria para nos contar: o tirar dos ninhos, o roubar as suas castanhas, o espreitar dos primeiros beijos etc. etc. Bem... Mas o castanheiro estava morto, e, como tal já não via mais nenhuma das histórias das suas gentes.

Ao dito castanheiro já havia alguns anos que o tínhamos condenado, mas ele era de uma imponência tal, que ninguém se atrevia a ir buscá-lo.

Naquela santa madrugada a fogueira estava a apagar-se e já não aquecia!...

O nosso avô era conhecido pelo TI Joaquim Valente, logo, os netos tinham que fazer algo que desse continuidade à sua conhecida valentia (Deus sabe quando o admirávamos e respeitávamos) e ficássemos assim também para a posteridade.

Lá fomos falar com o dono do castanheiro, que se mostrou logo disponível para o oferecer mas duvidando que o conseguíssemos trazer.

O ti Zé Ferreiro foi logo dizendo, "ó primos levamos umas velas e dinamite, que ele vem por aí abaixo feito em fanicos. Tal solução era impensável por ser violenta.

Mãos à obra, aí vai a rapaziada serra acima!... Lá arrastamos o castanheiro para o caminho, e, já o Sol raiava quando conseguimos a proeza de o azorrar serra abaixo até à nossa Terra, por entre a alegria e vivas dos nossos amigos e familiares.

Aquele tronco de castanheiro velho e carcomido foi lançado para aquela fogueira de Natal, ardeu e aqueceu durante três ou quatro dias toda a gente da Póvoa da Raposeira.

Aquele dia de Natal bem quentinho, aqueceu corpos e corações da nossa gente e ficou de tal modo memorável a nossa façanha, que ainda hoje perdura na lembrança de todos nós. Por outro lado, confirmou-se mais uma vez o velho ditado, "vamos todos como os da Póvoa".

"Estórias" da Póvoa da Raposeira
Armindo Martims Antunes


COMENTÁRIOS

O Senhor Braz, o barbeiro/enfermeiro "mais do que um doutor", aparece em muitas das conversas com as pessoas mais velhas de Dornelas. Contam-se muitos dos tratamentos, dos cuidados que ele prestou a muita gente, calcorreando as serras para chegar a todos os lugares, como dizia o filho, "a cavalo na burra". Os cuidados domiciliários à época eram por este cuidador prestados com dedicação e saber que a população reconhece.

Na recolha efectuada em Dornelas para o estudo que estou a realizar, o Sr. Braz é figura presente. Modelo de cuidados que a meu ver deveriam ser recuperados: o enfermeiro de família que em contexto rural, continua a ser um modelo a desenvolver. Agradeço todas as informações sobre o assunto.

Os melhores cumprimentos

Fernanda Dias

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