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A
transmissão oral constituiu o processo primordial de transferência
de saberes transgeracional da humanidade até ao aparecimento da
escrita. O registo gráfico, apesar de multimilenar foi, porém,
incapaz de destronar a literatura oral, não só porque a sua difusão
não é, ainda hoje, universal, mas porque provavelmente a oralidade,
enquanto veículo de transmissão de simbolismos, representa uma
componente indissociável do natural percurso cultural da humanidade.
Mesmo num mundo hipermediatizado e de tendência globalizante,
persistem focos de cultura ágrafa, nomeadamente nos continentes
Americano e Africano, onde a tradição oral desempenha e
desempenhará, por tempo indeterminado, um papel relacional
insubstituível.
O analfabetismo, que assola
de forma transversal todas as culturas do planeta, com maior ou menor
intensidade, bem como o encarceramento geográfico, limitante de contactos
interculturais, têm um papel determinante na persistência da
tradição oral.
Em Portugal, pelos factores
de isolamento geográfico e político sobejamente conhecidos, a
ruralidade e o analfabetismo tiveram uma prevalência especialmente
marcada, que apenas começou a ser atenuada na década de 60 do
século passado. A região serrana, mercê da inóspita topografia e
da ancestral modéstia de recursos, manteve níveis de analfabetismo
invulgares até há poucos anos, pelo que a tradição oral constituiu
o modo de transmissão da cultura local predominante, patente nos
contos, provérbios, fábulas, "lengalengas ",
superstições e fórmulas mágico-religiosas de medicina popular, que
marcaram de forma indelével o percurso cultural de todos quantos
tiveram o privilégio de viver uma infância embalada por essas
magnificas expressões de conhecimento puro e ingénuo.
Este património imaterial,
passado oralmente de geração em geração, representa não só um
mecanismo de afirmação e preservação identitária, mas também um
processo de transmissão de valores simbólicos, por vezes de
carácter apenas lúdico, mas também e frequentemente de intuito
normalizador e moralizador, tendente a implementar e reforçar
princípios éticos e de conduta imprescindíveis à dinâmica e à
sobrevivência da comunidade.
É notável a universalidade
do papel social e cultural da narrativa oral. Civilizações distintas
e sem contiguidade geográfica, incluem no seu repertório cultural
narrativas de carácter e estrutura surpreendentemente semelhantes.
Contos populares como o "João Soldado" ou a dança de roda
" Condessinha de Aragão" têm equivalentes muito próximos
em diferentes contextos etnográficos. Monsenhor Nunes Pereira
registou semelhanças formais inequívocas entre alguns "Contos
de Fajão" e narrativas da cultura popular alemã.
Este carácter universal
reforça claramente o papel da cultura de tradição oral como
necessidade intrínseca do homem, na afirmação da sua identidade
enquanto indivíduo e enquanto elo de uma complexa cadeia relacional.
A importância da cultura
popular de transmissão oral é reconhecida em Portugal desde o
Século XIX. Nomes como Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga,
Consiglieri Pedroso e Adolfo Coelho procederam à fixação em texto
das várias modalidades de narrativa oral, preservando-as assim de uma
perda irremediável.
Os meios académicos mostram
igualmente uma crescente sensibilização para esta temática sendo
já abundantes os estudos concretizados nos últimos anos em diversos
centros universitários nacionais, pela mão de vários estudiosos
como João David Pinto Correia, Maria Antonieta Garcia , Alexandre
Parafita e José Joaquim Dias Marques.
A região das Beiras foi
especialmente estudada por Maria Antonieta Garcia, Leonor Carvalhão
Buescu ,Viegas Guerreiro e José Carlos Duarte Moura. Obviamente que
estes estudos não podem abarcar, em termos de levantamento, todas as
localidades, nem contemplar todas as variantes locais. É portanto
imprescindível que a recolha local continue, até porque a
desertificação humana acelerada que actualmente se verifica no
interior, nomeadamente na região serrana, tornará inviável, a breve
prazo, este trabalho por escassez de fontes.
José Augusto Barata
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