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CULTURA E TRADIÇÃO ORAL

Por: José Augusto Barata

A transmissão oral constituiu o processo primordial de transferência de saberes transgeracional da humanidade até ao aparecimento da escrita. O registo gráfico, apesar de multimilenar foi, porém, incapaz de destronar a literatura oral, não só porque a sua difusão não é, ainda hoje, universal, mas porque provavelmente a oralidade, enquanto veículo de transmissão de simbolismos, representa uma componente indissociável do natural percurso cultural da humanidade. Mesmo num mundo hipermediatizado e de tendência globalizante, persistem focos de cultura ágrafa, nomeadamente nos continentes Americano e Africano, onde a tradição oral desempenha e desempenhará, por tempo indeterminado, um papel relacional insubstituível.

O analfabetismo, que assola de forma transversal todas as culturas do planeta, com maior ou menor intensidade, bem como o encarceramento geográfico, limitante de contactos interculturais, têm um papel determinante na persistência da tradição oral.

Em Portugal, pelos factores de isolamento geográfico e político sobejamente conhecidos, a ruralidade e o analfabetismo tiveram uma prevalência especialmente marcada, que apenas começou a ser atenuada na década de 60 do século passado. A região serrana, mercê da inóspita topografia e da ancestral modéstia de recursos, manteve níveis de analfabetismo invulgares até há poucos anos, pelo que a tradição oral constituiu o modo de transmissão da cultura local predominante, patente nos contos, provérbios, fábulas, "lengalengas ", superstições e fórmulas mágico-religiosas de medicina popular, que marcaram de forma indelével o percurso cultural de todos quantos tiveram o privilégio de viver uma infância embalada por essas magnificas expressões de conhecimento puro e ingénuo.

Este património imaterial, passado oralmente de geração em geração, representa não só um mecanismo de afirmação e preservação identitária, mas também um processo de transmissão de valores simbólicos, por vezes de carácter apenas lúdico, mas também e frequentemente de intuito normalizador e moralizador, tendente a implementar e reforçar princípios éticos e de conduta imprescindíveis à dinâmica e à sobrevivência da comunidade.

É notável a universalidade do papel social e cultural da narrativa oral. Civilizações distintas e sem contiguidade geográfica, incluem no seu repertório cultural narrativas de carácter e estrutura surpreendentemente semelhantes. Contos populares como o "João Soldado" ou a dança de roda " Condessinha de Aragão" têm equivalentes muito próximos em diferentes contextos etnográficos. Monsenhor Nunes Pereira registou semelhanças formais inequívocas entre alguns "Contos de Fajão" e narrativas da cultura popular alemã.

Este carácter universal reforça claramente o papel da cultura de tradição oral como necessidade intrínseca do homem, na afirmação da sua identidade enquanto indivíduo e enquanto elo de uma complexa cadeia relacional.

A importância da cultura popular de transmissão oral é reconhecida em Portugal desde o Século XIX. Nomes como Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga, Consiglieri Pedroso e Adolfo Coelho procederam à fixação em texto das várias modalidades de narrativa oral, preservando-as assim de uma perda irremediável.

Os meios académicos mostram igualmente uma crescente sensibilização para esta temática sendo já abundantes os estudos concretizados nos últimos anos em diversos centros universitários nacionais, pela mão de vários estudiosos como João David Pinto Correia, Maria Antonieta Garcia , Alexandre Parafita e José Joaquim Dias Marques.

A região das Beiras foi especialmente estudada por Maria Antonieta Garcia, Leonor Carvalhão Buescu ,Viegas Guerreiro e José Carlos Duarte Moura. Obviamente que estes estudos não podem abarcar, em termos de levantamento, todas as localidades, nem contemplar todas as variantes locais. É portanto imprescindível que a recolha local continue, até porque a desertificação humana acelerada que actualmente se verifica no interior, nomeadamente na região serrana, tornará inviável, a breve prazo, este trabalho por escassez de fontes.

José Augusto Barata


 

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