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"OS
SINOS DA MINHA ALDEIA"
O relógio
colectivo da minha aldeia (Meãs) e os sinos que lhe estão
subjacentes – mais estes que aquele – suscitaram no decurso deste
Verão reclamações junto das autoridades, por parte de uma família,
radicada em França, que reside (apenas no período de férias) nas
imediações da capela. Esta atitude desencadeou acaloradas
discussões sobre a utilidade e o papel do relógio colectivo na nossa
terra, para além da sua função óbvia: a de comunicar as horas.
Para
alguns (poucos), os sinos não deviam tocar, designadamente durante a
noite, visto que perturbavam o descanso daqueles que habitam mais
próximo do templo. Para outros (muitos), os sinos deviam tocar
ininterruptamente, aliás como sempre aconteceu. Estes alicerçam a
sua opinião numa série de argumentos, com os quais concordo
plenamente, que procurarei enunciar neste artigo.
Pelos
debates em torno dos sinos, fácil nos é inferir que constituem uma
instituição comunitária e, por isso, desempenham um papel afectivo
para os meãsenses (ou meanenses, preferimos esta designação), na
medida em que se estabelece entre eles e a comunidade aldeã uma
relação mística, que oscila entre o sagrado e o profano, entre o
conservadorismo e a rebeldia e entre a sua aceitação e a rejeição.
Fundação
do Relógio Comunitário
Não
é muito precisa, à luz dos dados actualmente disponíveis, a data da
fundação desta instituição. Apesar disso, a inscrição existente
na torre velha – então situada no cimo do povo - aponta para 1868.
Assim, o sino acompanha as Meãs há mais de um século (134 Anos) e,
que se saiba, sofre agora a primeira reclamação.
A
propósito da construção da torre que albergaria o sino, conta-se
uma história, que ainda percorre – se bem que timidamente – o
imaginário meanense. Durante a edificação da torre e para a
aquisição do sino, os meanenses deveriam contribuir com géneros,
nomeadamente alqueires de milho. Porém, o pai do "ti
Morgado" recusou-se a contribuir. No dia da inauguração, todas
as crianças foram autorizadas a "tocar o sino", à
excepção do "Ti Morgado". O menino, visivelmente triste,
chorava por ser impedido de fazer o mesmo que os outros. O seu pai,
arrependido do que fizera e incomodado com as birras do filho, pagou a
sua contribuição e a criança pôde também "tocar o
sino".
Em
1868, a torre encontrava-se, como já dissemos, no cimo da aldeia, à
semelhança do que se verificava em aldeias próximas. Não obstante o
crescimento da povoação, o sino manteve-se no mesmo local até cerca
da década de 90 da centúria seguinte. A construção de uma nova
capela no Estendedouro –então um dos extremos do povoado -, a
degradação das instalações da torre e a deterioração do velho
sino levaram a Comissão da Capela a construir uma nova torre junto do
novo templo e a adquirir novos sinos. O papel, por estes desempenhado,
nada difere daquele que competia ao seu antecessor.
O
Papel Religioso do Relógio Comunitário
O
carácter profundamente religioso dos meanenses depressa engendrou uma
relação afectiva e sagrada entre estes e o sino. Desde o remoto Ano
de 1868, pelo menos, o sino chamava e as pessoas respondiam para a
Eucaristia e para a celebração do Terço. Era o sino que,
subitamente, interrompia as tarefas de cada um para a reza das
trindades e para as orações às almas.
O
sino trazia as más notícias dos falecimentos, através dos
"sinais". Mediante o número e o compasso das badaladas,
todos identificavam se a implacável morte ceifara um homem ou uma
mulher.
A
comunhão entre todos e o sino era, pois, plena.
A
Importância do Sino para a Vida Comunitária
O
relógio colectivo era – e é – o único "contador de
tempo" de referência para todos os meanenses. Ninguém discutia
as informações horárias fornecidas por ele e, por conseguinte,
todos o respeitavam e cumpriam com as suas
"determinações".
De
facto, era (e é) o tempo fornecido pelo relógio colectivo que
indicava o começo e o termo das sortes nos fornos e moinhos da terra
e a posse da "Regadia do Povo". Intervém, igualmente, nos
ciclos agrícolas: relembra as horas a quem rega de noite e informa as
horas nos dias pequenos e grandes. É ao toque do sino que os
agricultores vão "tapar" a água do povo.
Estes
são, sem dúvida, Costumes ancestrais, que nada nem ninguém pôs em
causa.
Além
do papel de referência temporal, é opinião quase unânime que o
sino é, dia e noite, uma companhia inseparável, a despeito dos novos
meios de comunicação existentes, que são incapazes de o substituir.
Tanto mais que, com a desertificação a que inexoravelmente, vimos
assistindo, a presença do sino preenche alguns momentos de solidão
que muitas pessoas, mormente as mais idosas, experimentam. É ele que
quebra o silêncio de meia em meia hora a comunicar a sua presença e
a dizer que as Meãs Permanecem vivas.
O
sino, quando toca a rebate, despoleta a solidariedade e a comunhão
entre todos: é através dele que as pessoas se juntam para acudir a
um incêndio, para lavar a capela ou para qualquer outro trabalho
colectivo, em prol de todos.
O
sino é também símbolo de rebeldia, de desacordo com o que está.
Certamente todos nos recordamos de a "rapaziada tocar o sino a
rebate" durante a noite; lembramos com saudade as brincadeiras
que faziam, badalando as horas para enganar as pessoas que,
acreditando nas horas que ouviam, se deslocavam muito mais cedo que o
habitual "ao mato".
Costume
Ancestral
As
funções que o sino exerce e que, como já sublinhámos, vem
exercendo há, pelo menos, 134 Anos, constituem um Costume, que possui
as duas dimensões que o caracterizam. Tem corpo, isto é, uma
prática reiterada, uma vez que não há interrupção dos toques e
suas consequências. Demonstra-se também o espírito do Costume,
posto que as manifestações comportamentais observadas apontam para a
convicção da sua obrigatoriedade.
Estão,
portanto, aqui presentes as duas componentes do Costume – corpo e
alma –, como já referimos e de novo sublinhamos muito rapidamente:
funcionamento do sino ao longo do tempo, respeito dos meanenses por
ele e realização das tarefas que os seus toques sugerem, quer no
plano espiritual, quer ao nível temporal.
Existe
Lei proibitiva do Toque do Sino a Horas Mortas?
Será
que o costume a que nos referimos é contra "legem"?
Existirá alguma Lei que proíba o toque dos sinos para dar as horas
de noite? Mesmo que exista Lei, o que prevalece: a Lei ou o
Costume?...
A Lei
é, com certeza, posterior ao costume. Deste modo, será ela
retroactiva?... É que este Costume está directamente relacionado com
outros costumes locais, que nenhuma norma escrita alterou.
Se o
ruído nocturno – a poluição sonora – é argumento para
silenciar o sino da nossa terra, poderia ser, factor nas
aglomerações urbanas, para cancelar os voos, as circulações
rodoviária e ferroviárias durante a noite, porque o barulho dos
motores incomodava quem residia nas suas cercanias. Seguindo este
raciocínio, com o qual não concordamos, como é evidente, A vida
paralisaria à medida que o escuro se ia adensando.
Faça-se
um Referendo Local
Num
país democrático, uma boa forma de encontrar a vontade de uma
comunidade local é consultá-la. Seria uma soberana oportunidade de
praticar a democracia directa, que tão arredia anda dos cidadãos.
Pergunte-se, pois, aos meanenses se pretendem o sino total ou
parcialmente a tocar.
É
nossa convicção que a quase totalidade dos meanenses estão de
acordo com o toque do sino a todas as meias horas e que uma maioria
esmagadora da população votará "pelo que está". Prova
disto é um abaixo-assinado, posto a circular na povoação, que na
última semana de Agosto já havia recolhido 132 assinaturas.
Conclusão
Como
podemos observar, perpassa por todo este texto a relação afectiva de
que falávamos no início povo/sino. Esta ligação existe há mais de
um século e nunca, sublinhe-se, fora posta em causa.
As
importantes funções que o relógio comunitário ainda desempenha –
função religiosa e comunicativa, para manter o que resta da
solidariedade comunitária - são de molde a mantê-lo tal como está.
Trata-se
de um Costume que só deveria ser alterado por decisão dos meanenses,
mediante uma consulta à sua opinião: dever-se-á ter em conta o
pulsar e as convicções profundas do povo, presentes na "opinião
pública meanense".
Carlos
J. Gonçalves
COMENTÁRIOS
A ESTE ARTIGO

COITADOS
DO GALO E DO GATO...
Sobral
Valado
Contam-nos os antigos
que em tempos já muito distantes, por altura das festas do nosso
Padroeiro S. Lourenço, a 10 de Agosto, faziam na aldeia alguns
divertimentos ou distracções para a rapaziada se entreter.
Entre elas existiam
as corridas do galo e do gato.
Ocupemo-nos primeiro
com a corrida do galo. Arranjavam um bonito e corpulento galo.
Espetavam um ferro ou estaca no chão onde o prendiam .
De seguida, e a uma
determinada distância , começavam a mandar-lhe pedras, até o matar
. Cada participante pagava determinada importância por cada pedra que
lhe atirava.
Não sei se havia
prémios para os melhores atiradores ou para aquele que em último lhe
acertasse.
O certo é que depois
o iam cozinhar e todos comiam.
Segundo se consta
tinha muitos concorrentes esta prova e não menos assistentes, que ao
lado faziam claque e aplaudiam ou repudiavam os atiradores, conforme
as suas pontarias...
Ocupemo-nos agora do
gato
Se o primeiro acto
era selvagem e reprovável, o segundo não era menos. Hora vejamos:
Faziam um grande
monte de lenha, bem seca. No meio colocavam uma vara na vertical. Na
ponta dessa vara pregavam uma panela velha com tampa. Então, já
tinham ali o gato que mais se tivesse distinguido em roubar comida aos
donos ou à povoação e colocavam-no dentro da panela e amarravam a
tampa com um cordel .
De seguida deitavam
fogo à lenha. Com o calor produzido a panela aquecia, com o gato lá
dentro...O cordel ardia e o gato com tanto calor e a panela em brasa,
saltava para fora com tanta força e sem ver, que ia cair ainda na
fogueira...
Não sei se alguma
vez algum morreu, mas a saúde seria pouca...
Isto era presenciado
por muita gente que delirava com tudo o que se estava a passar,
principalmente as donas de casa, que viam desta forma a possibilidade
de ficarem livres de terrível "ladrão"
Havia nesse tempo na
aldeia talvez 500 ou 600 habitantes.

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